Somos todos ambidestros

Pensei em batizar este texto como “Além do bem e do mal”, mas se o fizesse daria a impressão de estar me inspirando em Nietzsche, um autor que prefiro nem mencionar.

Ops, acabei de mencioná-lo…

Aproveito então a oportunidade para dizer que muito do que foi publicado no Ocidente desde o século XVI é lixo e deve ser jogado fora.

Não sou católico, mas desde a Reforma Protestante com sua doutrina do livre exame das escrituras sagradas todo mundo se sente motivado a opinar (e brigar) sobre tudo, especialmente sobre temas complexos e que exigem muita sabedoria.

Gutenberg criou mais problemas do que soluções. Assim como Zuckerberg. E é uma ironia dois homens que infernizaram o mundo trazerem no próprio nome algo tão celestial quanto a montanha (berg, em alemão).

Por isso o único jeito de evitar os efeitos colaterais de nossas ações (karma, em sânscrito) é ir além do bem e do mal, transcender as dualidades.

Neste mundo de moedas, absolutamente todas têm dois lados. Inflação e deflação, nascimento e morte, liberdade e escravidão, tristeza e alegria, amor e ódio, luz e escuridão, calor e frio, esquerda e direta.

Pense em tudo o que você já fez. Quantas injustiças você cometeu em nome da justiça? E os bélicos discursos que você proferiu em nome da paz? E todas as vezes em que você intolerantemente defendeu a tolerância? O quanto você precisou odiar para poder amar? Quantas vezes sua busca por prazer resultou em dor? Quanta escravidão sua liberdade trouxe? Quantas vezes sua ajuda acabou atrapalhando? Por outro lado, quanto aprendizado você obteve através do sofrimento?

Reflita com honestidade e paciência. Falar menos deveria ser um resultado natural da reflexão. Não se explicar. Fazer qualquer coisa, mas sem anunciar que se está agindo em nome da liberdade, igualdade e fraternidade. Como atualmente é quase impossível arranjar comida sem proferir discursos épicos, continue falando (e ouvindo). Apenas não leve a sério.

As pessoas não sabem o que dizem. Elas nem se conhecem, então como poderiam saber? Você sabe o que diz? Você se conhece? Autoconhecimento exige coragem e trabalho duro. Não há espaço para o “jeitinho brasileiro”. Gastar uma hora por semana com o psiquiatra e engolir pílulas da felicidade pode parecer cool, mas não resolve nada.

Com o tempo, depois de muitas crises existenciais, você acabará aceitando que não é o que pensava (e dizia) ser. Você não é apenas bonzinho, pacífico, feliz e comunitário. Você também é mau, violento, depressivo e competitivo. Usando a terminologia do texto anterior, você é anticapitalista E ultracapitalista. Você é de esquerda E de direita. Você é ambidestro!

Então, seu bipolar, sem nenhuma droga receitada por algum psiquiatra idiota aos poucos você acabará se elevando sobre o mundo material, até o ponto em que seus próprios braços perderão a utilidade. Afinal de contas, uma alma não precisa agarrar coisa nenhuma, precisa?

Anticapitalistas são ultracapitalistas

Há algum tempo, depois de anos de intensa leitura e observação, concluí (dolorosamente) que anticapitalistas são ultracapitalistas. Sim, todos os revolts que chutam o pau da barraca e saem por aí pregando paz, cooperação, liberdade e justiça acabam se comportando com tanta ou mais competitividade do que os capitalistas assumidos.

No piramidal sistema vigente, onde uns (muitos) precisam perder para que outros (poucos) ganhem, quem larga aquele trabalho chato e estressante para viver de forma mais humana está automaticamente empurrando a bomba para outra pessoa, que terá de se estressar para fazer o trabalho chato e viver de forma desumana.

Não há escapatória.

Se a população fosse menor e recebesse boa educação, talvez seria possível criar uma sociedade mais cooperativa. Talvez. Mas com certeza nas condições atuais não é possível.

Quem prega paz, cooperação, liberdade e justiça no mundo moderno na verdade está reivindicando paz, cooperação, liberdade e justiça para si (e para os seus). E “ozotros” que se lasquem.

Não que todos os pregadores sejam necessariamente sacanas. A maioria é apenas “ingnorante” e compra o discurso de outros pregadores. Os pregadores que vivem de pregar, estes sim, são o maior perigo. Vivem $erenamente ensinando a viver serenamente. Mas será que viveriam $erenamente se não ensinassem a viver serenamente? Não! Eles precisam de seguidores, de preferência seguidores endinheirados. Caso contrário teriam de ralar em um trabalho qualquer.

Se queremos ser anticapitalistas de verdade, que arranjemos algum trabalho indigno e doemos nossos escassos soldos para entes necessitados. E tudo isso de bico calado, sem ostentar nossa bondade sacrificial.

Se esta opção não agradar, que fiquemos à vontade para ir em busca de uma vida mais saudável e interessante, pois este é um desejo legítimo. Só não nos consideremos exemplos de luta contra o sistema. Afinal não passamos de ultracapitalistas…